As camélias abolicionistas do Leblon
Houve um quilombo no Leblon, idealizado pelo português José de Seixas Magalhães, homem de idéias avançadas, fabricante de malas e sacos de viagem. Em sua chácara - conhecida como Quilombo Leblon - cultivava camélias com o auxílio de escravos fugidos e com a cumplicidade dos principais abolicionistas da capital do Império, flores que eram o símbolo por excelência do movimento abolicionista e da Confederação Abolicionista. Com a proteção do Imperador e de sua filha, o quilombo do Leblon nunca chegou a ser seriamente investigado, continuando Seixas a enviar à princesa seus subversivos ramalhetes de camélias. A Princesa ousou, algumas vezes, aparecer em público com uma dessas flores a adornar-lhe a roupa, fato sempre notado pelos jornais. Foram-lhe oferecidos, inclusive, quando da assinatura da Lei Áurea, bouquets de camélias pelo presidente da Confederação Abolicionista, João Clapp, e pelo Seixas.

A flor servia como uma espécie de código de identificação entre os abolicionistas, principalmente quando empenhados em ações mais perigosas, ou ilegais, como auxiliando fugas ou conseguindo esconderijo para os fugitivos. Um escravo podia identificar imediatamente possíveis aliados pelo uso de uma dessas flores no peito, do lado do coração. Naqueles tempos, usar uma camélia na lapela ou tê-la em seu jardim em casa, era uma quase acintosa confissão de fé abolicionista. Alguns pés de camélias remanescentes desse tempo simbólico ainda podem ser encontrados nos jardins, como os da Casa de Rui Barbosa, atuante membro do movimento abolicionista. Estes pés de camélia são documentos vivos e, em algumas épocas do ano, floridos, da história do Brasil.


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